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Quando só ferramentas não bastam

Os problemas gerados pelo uso de ferramentas sociais sem a necessária estratégia, são basicamente dois: expõe a falta de conhecimento das potencialidades do instrumental de quem implantou e pode exterminar uma boa idéia pela falta de planejamento.

Evito aqui no iGovBrasil relatar experiências mal sucedidas, a menos que representem tentativas legítimas de boas intenções, de um bom projeto cujas falhas correspondam a processo, não a conceito . Tanto que, o leitor habitual deste blog, ao consultar nossa categoria de Boas Práticas, encontra dezenas de iniciativas que, mesmo enfrentando problemas, apontam para propostas amadurecidas no conceito da inovação em governo.

Nos últimos dez dias, entretanto, duas ações de governo no uso das ferramentas sociais, uma brasileira e outra norte-americana, revelam essa falha estratégica que, talvez pela facilidade do uso ou pelo modismo de Obama, decidem implantar sem muita reflexão ou conhecimento de causa, ferramentas colaborativas em âmbito governamental.

O fiasco brasileiro é o blog do Planalto, que apesar de ter sido perdoado por não suportar além de seis mil acessos simultâneos, desconsiderando a cifra de 40 milhões de internautas no país, o também chamado blog do Lula, feriu um dos princípios fundamentais da web 2.0 ao não permitir comentários nas postagens. Isso não se faz, Arnesto. Em governo interativo, falar e ouvir faz parte do jogo.

Pensei que a desculpa para essa comunicação de mão única fosse a falta de estrutura para responder, mas ao descobrir que foram contratados quatro profissionais de imprensa para dedicação exclusiva ao blog, desisti de tentar compreender.

A conseqüência, além de virar piada nas comunidades virtuais e presenciais, foi a excelente resposta de autoria ainda anônima, no melhor estilo blogueiro, colocando no ar o clone blog do Planalto, este sim permitindo comentários. Por essa ninguém esperava (!?).

O deslize nos EUA vem da Califórnia, onde o musculoso governador Arnold Schwarzenegger, ao tentar implementar a inovação em sua gestão a partir da participação popular, à semelhança do Open Government Dialogue do governo federal, lançou um brainstorm estadual desorganizado e mal instrumentalizado, denominado My Idea for CA.

Numa plataforma Twitter, o governo californiano pede aos seus cidadãos que postem, em até 140 caracteres, uma proposta para melhorar e inovar em seu Estado. Ora, governador, idéias num espaço tão curto não podem ser razoavelmente compreendidas, todos nós sabemos, o que dá espaço para xingamentos, baboseiras e protestos pixados em forma de post.

O cidadão também pode votar na idéia do outro, mas nada além disso é explicado ou coerentemente amarrado com outras ações, de como será organizado, quais idéias prevalecerão, ou ainda, como será aprofundado, se é que conseguirão.

Receio que teremos, aqui e lá fora, uma avalanche de más práticas feito essas, o que é pena, é sinal que os governantes estão sendo assessorados por gente que confunde ferramenta social com comunicação social, ou que esquece que governo participativo deve ser, acima das ferramentas, colaborativo.

Compreendo, por experiência própria, o enorme esforço que temos ao migrar do Gov 1.0 para o Gov 2.0, não dependemos mais das fragilidades ou intolerâncias do instrumental comunicativo, dependemos de pessoas em sintonia com esses instrumentos e com a sociedade que os utiliza.

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